venerdì

:: Aqui...




Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos
Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente
Sophia de Mello Breyner Andresen

:: Gala Galankina...








Fotografia em ANJOS VESTEM MOSCHINO

mercoledì

:: Desenho a minha ausência...



Desenho a minha ausência
juntamente com as rosas que murcham
mesmo em frente à janela onde escrevo.
Deixei cair umas pétalas,
o ténue fio
de um caminho que se perde antes
do horizonte.
Conto as letras que encontrei
nos bolsos, não chegam para nada
e não há perguntas,
nada que queira saber.
Uns trocos para pão,
migalhas no caminho
onde me esperas como se eu fosse um pássaro
faminto.
Dou-te uma bicada de amor:
é tudo o que ficou fora do desenho.
As árvores dão estalidos
como se o vento se tivesse levantado
tão cedo.
Estou aqui de véspera
e nem sequer estou cansada.
Atrás do monte há um roseiral quando
lá chegar direi que estive à tua espera
e será verdade como tudo o que escrevo:
amar-te-ei sempre entre as rosas
que planto ao acaso no papel
onde um rio canta
porque me esqueci de desenhar as margens.
Rosa Alice Branco

:: Ben Goossens...


:: Sandálias Christian Louboutin...






Que eu Gosto!!!
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:: Stella MCcartney...




Que Eu Gosto!!!


:: Ena L...















Amor é mais do que dizer.
Por amor no teu corpo
fui além e vi florir a rosa
em todo o ser
fui anjo e bicho e todos e ninguém.
Como Bernard de Ventadour amei
uma princesa ausente em Tripoli
amada minha onde fui escravo e rei
e vi que o longe estava todo em ti,
Beatriz e Laura e todas só tu
rainha e puta no teu corpo nu
o mar de Itália a Líbia o belvedere
E quanto mais te perco
mais te encontro
morrendo e renascendo
e sempre pronto
para em ti me encontrar
e me perder.
Manuel Alegre



Fotografia de Ena L

:: Busco...






Busco fora de mim
o que existe somente
em mim;
sempre serei a solitária flor
que, da infausta existência esquecida,
inconsciente,
varia na embriaguez
febril do próprio odor.
Distribui-se meu ser
de tal modo no ambiente,
que chego a uma alma irmã
perto de mim supor;
sinto comigo, alguém,
longe de toda gente,
e as multidões me dão
da soledade o horror.
O que anseio é só meu,
só no meu ser existe,
e por isso me fiz muito triste,
assim triste,
no sonho de afeição
que me é dado compor...
Procuro-me a mim mesma,
em meus longes perdida,
sem poder encontrar,
dentro de estranha vida,
um amor, outro amor,
para o meu louco amor!...
Gilka Machado

:: Bordeline...

martedì

::


:: Não sei..




Não sei adormecer:
a madrugada
respira num silêncio
que é o teu silêncio,
nesta febre
a arder na minha alma tão antiga.
Lá fora os astros não respondem:
as montanhas diluem
o tempo e o espaço
e todo o céu começa a dilatar-se
no êntase mais negro
enquanto bebo o cego
sofrimento de não estares aqui.
A tua ausência fala-me às escuras
e o olhar devora estas paredes,
o meu quarto vazio
onde se oculta o lume
de uma estrela
pronta a morrer.
A noite chama ainda por ti
dentro de mim- sombra
feita de luz,
à espera de outro sonho
ou do teu próximo
sorriso.
Fernando Pinto do Amaral

:: A largada...




A largada

Foram então as ânsias

e os pinhais Transformados

em frágeis caravelas

Que partiam guiadas

por sinais Duma agulha

inquieta como elas...

Foram então abraços repetidos

À Pátria-Mãe-Viúva

que ficava

Na areia fria aos gritos

e aos gemidos

Pela morte dos filhos

que beijava.

Foram então

as velas enfunadas

Por um sopro viril

de reacção

Às palavras cansadas

Que se ouviam

no cais dessa ilusão.

Foram então

as horas no convés

Do grande sonho

que mandava ser

Cada homem tão firme

nos seus pés

Que a nau tremesse

sem ninguém tremer.

Miguel Torga

:: Glen Lbbitson...


domenica

:: O desespero da Piedade...







O Desespero da Piedade



Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde

E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...

Mas tende piedade também dos que andam de automóvel

Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.

Tende piedade das pequenas famílias suburbanas

E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos

Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam

E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina

Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta

Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina

Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte

E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.

Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá

Que são virtuoses da própria tristeza e solidão

Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio

E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.

Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram

E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução

Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram

E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.

Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos

Quem em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão

E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão

Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...

Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros

Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias

Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:

Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!

Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria

Quem lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos

Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo

Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.

Tende piedade dos homens úteis como os dentistas

Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer

Mas tente mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia

Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.

Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos

Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão

Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes

Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.

E no longo capítulo das mulheres,

Senhor, tenha piedade das mulheres

Castigai minha alma, mas tende piedade das mulhere

sEnlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres

Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!

Tende piedade da moça feia que serve na vida

De casa, comida e roupa lavada da moça bonita

Mas tende mais piedade ainda da moça bonita

Que o homem molesta

— que o homem não presta, não presta, meu Deus!

Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais

Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação

E sonham exaltadas nos quartos humildes

Os olhos perdidos e o seio na mão.

Tende piedade da mulher no primeiro coito

Onde se cria a primeira alegria da Criação

E onde se consuma a tragédia dos anjos

E onde a morte encontra a vida em desintegração

.Tende piedade da mulher no instante do parto

Onde ela é como a água explodindo em convulsão

Onde ela é como a terra vomitando cólera

Onde ela é como a lua parindo desilusão.

Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas

Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade

Mas tende piedade também das mulheres casadas

Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.

Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas

Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas

Mas que vendem barato muito instante de esquecimento

E em paga o homem mata com a navalha,

com o fogo, com o veneno.

Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas

De corpo hermético e coração patético

Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas

Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.

Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres

Que ninguém mais merece tanto amor e amizade

Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade

Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.

Tende infinita piedade delas,

Senhor, que são puras

Que são crianças e são trágicas e são belas

Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam

E que têm a única emoção da vida nelas.

Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse

Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade

E outra, à simples emoção do amor piedoso

Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.

Tende piedade delas, Senhor,

que dentro delas

A vida fere mais fundo e mais fecundo

E o sexo está nelas, e o mundo está nelas

E a loucura reside nesse mundo.

Tende piedade, Senhor, das santas mulheres

Dos meninos velhos, dos homens humilhados

— sede enfim

Piedoso com todos, que tudo merece piedade

E se piedade vos sobrar, Senhor,

tende piedade de mim!

Vinicius de Moraes